A vida não é sobre a linha de chegada: o sentido da vida segundo o Espiritismo

Qual foi a última grande meta que você conquistou? A formatura, a casa própria, uma promoção, um corpo mais saudável. E quanto tempo durou a alegria dessa conquista?

Para a maioria de nós, durou pouco. Logo apareceu a próxima meta, e depois a outra. Passamos a vida olhando para a linha de chegada e quase nunca para o caminho.

Neste texto, vamos refletir sobre o sentido da vida no Espiritismo, com a ajuda de Allan Kardec, Chico Xavier e Divaldo Franco. A ideia central é simples: a vida não é sobre metas, conquistas e linha de chegada. É sobre quem nos tornamos durante a caminhada.

A armadilha da linha de chegada

Ter metas não é errado. Elas organizam a vida e nos tiram da acomodação. O problema começa quando a meta vira o único sentido da existência.

Aí caímos numa armadilha: achamos que a felicidade está sempre lá na frente. “Quando eu me formar, vou ser feliz.” “Quando eu pagar essa dívida, vou ter paz.” “Quando os filhos crescerem, vou ter tempo.” E a vida vai passando no “quando”.

Pense numa viagem de carro até a praia. Uma pessoa passa seis horas de olho no GPS, irritada com o trânsito, contando os quilômetros. Outra conversa com a família, para num mirante, toma um café na beira da estrada. As duas chegam à mesma praia. Mas só uma delas viajou.

E a Doutrina Espírita vai além: de tudo o que conquistamos aqui, nada atravessa a morte. O diploma fica, o carro fica, a conta no banco fica. A única coisa que levamos é aquilo que nos tornamos.

Qual é o objetivo da encarnação, segundo Kardec

Allan Kardec fez aos Espíritos uma pergunta muito direta, registrada em O Livro dos Espíritos, questão 132: qual é o objetivo da encarnação? A resposta foi esta:

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação.”

Os Espíritos não disseram que viemos para acumular, vencer ou chegar primeiro. Disseram que viemos para chegar à perfeição, e que o caminho passa pelas vicissitudes, os altos e baixos da vida. Ou seja: a dificuldade não é um desvio da caminhada. É a própria caminhada. A demissão, a doença, a perda, o conflito em casa: é nesse terreno que somos lapidados.

Como saber se estamos progredindo espiritualmente

Kardec responde em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4. Ele não diz que o verdadeiro espírita é quem sabe mais ou quem frequenta mais o centro:

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações.”

Repare na palavra esforços. Kardec valoriza quem está a caminho, não quem já chegou. A medida do progresso é uma pergunta: hoje eu sou um pouco melhor do que fui ontem? Um pouco mais paciente, mais generoso, menos orgulhoso?

Por isso, na questão 919 de O Livro dos Espíritos, o meio mais eficaz de se melhorar é resumido numa frase antiga: “Conhece-te a ti mesmo.” A caminhada que importa é, antes de tudo, uma caminhada para dentro.

André Luiz e Paulo de Tarso: histórias da caminhada na obra de Chico Xavier

Em Nosso Lar, ditado pelo Espírito André Luiz a Chico Xavier, conhecemos um médico respeitado, bem-sucedido, com família e posição social. Pela régua do mundo, ele tinha “chegado lá”. Mas, ao desencarnar, descobre que o diploma e o prestígio não o acompanharam. Chega ao plano espiritual em sofrimento e é chamado de “suicida inconsciente”, alguém que encurtou a própria vida pelos excessos. Só ao recomeçar do zero, aprendendo a servir e a ter humildade, ele começa de fato a caminhar.

Em Paulo e Estêvão, ditado por Emmanuel, Saulo de Tarso é um jovem brilhante, doutor da lei, cheio de metas. E sua vida muda justamente no caminho, na estrada de Damasco. Saiu de Jerusalém como Saulo, o perseguidor, e terminou a vida como Paulo, o apóstolo. A estrada não mudou o destino dele. A estrada mudou ele.

O próprio Chico psicografou mais de quatrocentos livros e não ficou com nenhum centavo dos direitos autorais. Sua grande obra foi o homem que ele se tornou escrevendo cada um deles.

Ego e ser profundo: o autodescobrimento em Joanna de Ângelis

Pela psicografia de Divaldo Franco, o Espírito Joanna de Ângelis dedicou uma série de livros à viagem interior. Um deles se chama Autodescobrimento: uma busca interior. Nele, aprendemos a diferença entre o ego, que vive de aparências e conquistas externas, e o ser profundo, nossa essência espiritual, que cresce pelo amor, pelo perdão e pelo autoconhecimento. O ego quer chegar. O ser profundo quer crescer.

Em 1952, em Salvador, Divaldo e o amigo Nilson de Souza Pereira fundaram uma obra social que acolheria milhares de crianças e famílias. O nome escolhido foi Mansão do Caminho. Não “da Chegada”, não “da Vitória”. Porque quem serve sabe: o bem não tem linha de chegada.

Mundo de regeneração: um alerta para o nosso tempo

Essa caminhada não é só de cada um de nós. O planeta inteiro também está caminhando. Alguns buscam chegar ao destino com trabalho árduo e o próprio suor. Outros não medem esforços e não respeitam nada nem ninguém para chegar lá.

Em A Gênese, capítulo XVIII, “São chegados os tempos”, Kardec explica que a Terra está passando de mundo de provas e expiações para mundo de regeneração. Nessa transição, os Espíritos que insistirem no mal seguirão para mundos mais atrasados, onde continuarão seu aprendizado.

Em uma palestra recente, nosso irmão espiritual André trouxe um alerta sobre isso:

“Essa analogia que eu estou fazendo esta noite é para levar você a um despertar, nesse limiar do planeta de regeneração. Eu, inclusive, estou assustado com a quantidade de seres que estão sendo encaminhados para um planeta primitivo. […] São pessoas de todas as profissões, inclusive de religiões, inclusive do meio espírita, e pessoas políticas, principalmente políticas. É gente de toda espécie e ordem.”

“Não basta se intitular espírita, evangélico, católico, humanista ou de outra religião que seja. O que importa é entender e viver tudo aquilo que essas crenças pregam. […] Você tem que ser cristão de carteirinha, viver os ensinamentos que o Mestre deixou para nós.”

Não basta frequentar a casa espírita. Não basta ter cargo, diploma ou posição. Nada disso é passaporte. O que conta é quem nos tornamos. E a boa notícia é que a caminhada ainda não terminou: ainda dá tempo de despertar.

Quem você está se tornando?

Volte àquela primeira pergunta, agora de outro jeito: quem você se tornou enquanto buscava sua última meta? Ficou mais paciente ou mais ansioso? Mais generoso ou mais fechado? Mais perto ou mais longe das pessoas que ama?

Um dia, a estrada desta encarnação vai terminar. Ninguém vai perguntar quantas metas cumprimos. A pergunta será outra: quanto amamos, quanto aprendemos, quanto servimos.

Continue tendo metas. Sonhe, planeje, conquiste. Mas olhe para o caminho, para as pessoas que caminham ao seu lado, e aproveite cada tropeço como uma lição. A linha de chegada passa num instante. Quem nos tornamos durante a caminhada fica para sempre.

Gostou desta reflexão? Compartilhe com alguém que está correndo demais atrás da próxima meta.

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